Quando a escassez vira modo de viver: um olhar fenomenológico sobre o medo de se permitir mais

Há pessoas que, mesmo tendo capacidade, inteligência e oportunidades, vivem sempre “no mínimo”. É como se algo dentro delas dissesse que é mais seguro não esperar muito, não desejar demais, não ir tão longe.
Essa forma de existir não é preguiça, falta de ambição ou desinteresse — é uma maneira de se proteger.

Na perspectiva fenomenológico-existencial, a vida de cada pessoa é compreendida a partir do modo como ela se coloca no mundo. Isso significa que o comportamento de viver em escassez não é um “defeito”, mas uma forma de estar no mundo que tem sentido dentro da história dessa pessoa.

Em algum momento, o “viver com pouco” foi uma estratégia para lidar com a insegurança, a falta, o medo de perder ou de se frustrar. Quando se viveu muito tempo sem ter garantias, o suficiente passa a parecer confortável.
Mesmo que racionalmente a pessoa saiba que poderia ter mais — emocionalmente, o “mais” é interpretado como ameaça.

Do ponto de vista existencial, é um modo de permanecer em um território conhecido, onde o sujeito sente que tem algum controle. Afinal, o desconhecido — o novo, o crescimento, o risco — pode despertar angústia.
E a angústia, embora faça parte da existência, é algo que muitos tentam evitar a todo custo.

Como começar a sair desse modo escasso

  1. Reconhecer o modo de existir
    Antes de tentar mudar, é importante perceber o quanto esse padrão de “viver com pouco” está presente nas pequenas escolhas do dia a dia — nas relações, nas oportunidades, nos desejos que são rapidamente silenciados.
    O autoconhecimento começa quando se observa o que se repete.
  2. Aceitar a angústia como parte do crescimento
    Crescer exige contato com o desconhecido. A angústia, na visão existencial, não é algo a ser eliminado, mas um sinal de que estamos diante de novas possibilidades.
    Em vez de fugir dela, é possível acolhê-la como parte do movimento de se abrir à vida.
  3. Reaprender a desejar
    Quem viveu muito tempo em escassez, muitas vezes, se desacostumou a desejar. Retomar o contato com o próprio querer — mesmo que em coisas simples — é um passo importante para sair desse modo de sobrevivência e se aproximar de uma vida mais autêntica.
  4. Buscar apoio
    A psicoterapia é um espaço seguro para compreender as origens dessa escassez e permitir-se novos modos de existir. Através do diálogo, o paciente pode se ver de forma mais ampla, sem julgamentos, e construir novas possibilidades de ser.

Viver em escassez pode parecer seguro, mas é uma segurança que aprisiona. Permitir-se desejar mais, sonhar mais e viver com mais plenitude não é egoísmo — é um gesto de coragem diante da própria existência.